Crise de memória faz notebooks voltarem para a DDR4 — entenda o que está acontecendo

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Por que fabricantes estão usando uma tecnologia antiga justamente agora? A resposta envolve inteligência artificial, falta de chips e uma disparada no preço da memória RAM.

Se você está acostumado a ver novos notebooks chegando ao mercado com memória DDR5, uma notícia recente pode parecer estranha: alguns fabricantes estão voltando a oferecer DDR4 em máquinas novas.

Não se trata de um simples retrocesso tecnológico. A decisão é uma consequência direta de uma das maiores crises de memória RAM dos últimos anos.

A explosão da demanda por infraestrutura de inteligência artificial está pressionando a produção mundial de chips de memória. Com isso, a DDR5 ficou muito mais cara e difícil de encontrar, obrigando fabricantes de computadores a procurar alternativas para manter seus produtos competitivos.

Um dos exemplos mais recentes vem da MSI, que passou a oferecer uma configuração do notebook gamer Katana 15 HX C14 com memória DDR4-3200, além da tradicional opção DDR5. O equipamento pode utilizar processadores potentes e até GPU GeForce RTX 5070, mostrando que a DDR4 não está necessariamente limitada a máquinas básicas.

A inteligência artificial está por trás da crise

A explicação começa nos data centers.

Modelos de inteligência artificial generativa exigem enormes quantidades de memória para funcionar. Empresas que desenvolvem serviços de IA estão construindo data centers cada vez maiores, aumentando a procura por diferentes tipos de memória.

Um dos componentes mais importantes nesses sistemas é a HBM (High Bandwidth Memory), utilizada principalmente em aceleradores e GPUs voltadas para inteligência artificial.

Fabricantes de memória passaram a direcionar uma parcela significativa de sua capacidade produtiva para esses componentes de maior valor.

O resultado é uma pressão sobre a oferta destinada ao mercado tradicional de PCs, notebooks e outros dispositivos.

A própria MSI aponta a demanda da IA e a migração da capacidade produtiva para HBM como fatores importantes para a atual escassez de DRAM.

DDR5 ficou muito mais cara

A consequência mais visível para o consumidor está no preço.

Segundo o levantamento mais recente do Tom’s Hardware, kits DDR5 de 32 GB que custavam aproximadamente US$ 100 a US$ 200 em outubro de 2025 passaram a ser encontrados por cerca de US$ 350 ou mais em agosto de 2026, quando disponíveis.

Em alguns casos, os preços chegaram a multiplicar várias vezes em relação ao período anterior à crise.

E a DDR4 também não escapou completamente.

Embora ainda seja mais barata que a DDR5 em várias situações, a geração anterior também sofreu aumentos importantes. Segundo o mesmo levantamento, kits DDR4 de 32 GB que custavam cerca de US$ 60 a US$ 90 em outubro de 2025 chegaram a faixas próximas de US$ 150 a US$ 180 em determinados períodos de 2026.

Ou seja: a DDR4 não ficou barata porque a DDR5 ficou cara; ela também está sendo afetada pela escassez.

Por que voltar para uma tecnologia antiga?

A resposta é simples: custo.

Fabricar um notebook com DDR5 pode ficar significativamente mais caro quando o preço dos módulos dispara.

Para fabricantes que trabalham com notebooks de entrada e intermediários, cada componente influencia diretamente o preço final.

Ao oferecer uma configuração DDR4, a empresa consegue:

  • reduzir o custo da memória;
  • manter notebooks em faixas de preço mais acessíveis;
  • aproveitar processadores compatíveis com DDR4;
  • oferecer uma alternativa ao consumidor;
  • reduzir a dependência da disponibilidade de DDR5.

Foi exatamente essa estratégia adotada pela MSI no Katana 15 HX C14. O notebook pode utilizar DDR4-3200 ou DDR5, dependendo da configuração escolhida.

Mas DDR4 é pior que DDR5?

Sim e não.

A DDR5 é tecnicamente mais moderna e oferece maior largura de banda, além de outras melhorias arquitetônicas.

Porém, isso não significa que um notebook DDR4 seja automaticamente lento.

Em determinadas aplicações, especialmente quando o processador e a GPU são os principais responsáveis pelo desempenho, a diferença prática pode ser menor do que o consumidor imagina.

Para jogos, por exemplo, o desempenho depende de diversos fatores:

Processador + GPU + memória + armazenamento + refrigeração + software

Por isso, um notebook com DDR4 e uma GPU poderosa pode continuar sendo uma máquina bastante rápida.

A própria MSI considera a DDR4 uma alternativa viável para sistemas voltados a consumidores que precisam controlar o orçamento durante a atual crise.

O curioso é que a DDR4 também está ficando mais cara

Aqui está uma das partes mais interessantes da crise.

Normalmente, quando uma tecnologia é substituída por uma geração mais nova, espera-se que seu preço caia.

Mas o mercado atual está fugindo dessa lógica.

A demanda por DDR5 aumentou enquanto a produção de diferentes tipos de DRAM está sendo pressionada pela infraestrutura de IA.

Com isso, até tecnologias antigas passaram a sofrer com restrições de oferta.

Dados recentes mostram que a DDR4 também teve aumentos expressivos de preço durante 2026.

Isso cria uma situação incomum:

Uma tecnologia antiga está voltando para produtos novos justamente porque a tecnologia mais moderna ficou cara demais.

A crise também pode aumentar o preço dos notebooks

O problema não termina na memória RAM.

Fabricantes de notebooks precisam comprar memória, armazenamento, processadores, GPUs e outros componentes.

Quando esses custos aumentam, parte deles acaba chegando ao consumidor.

A MSI já sinalizou aumentos de 15% a 30% em determinados produtos de hardware, em meio à pressão provocada pela memória e por outros componentes.

No mercado brasileiro, isso pode ser ainda mais perceptível devido à combinação de câmbio, impostos, logística e margens de distribuição.

Por isso, a crise de memória pode acabar influenciando não apenas quem compra RAM separadamente, mas também quem está procurando um notebook novo.

Então vale a pena comprar um notebook DDR4 em 2026?

Depende do preço e do conjunto.

Se um notebook DDR4 estiver consideravelmente mais barato que uma versão DDR5 equivalente, pode fazer sentido.

Para quem utiliza o computador para:

  • navegar na internet;
  • trabalhar;
  • estudar;
  • utilizar Office;
  • programar;
  • assistir vídeos;
  • utilizar aplicativos comuns;
  • jogar ocasionalmente;

um sistema DDR4 ainda pode oferecer uma experiência muito boa.

Já para quem pretende manter o equipamento por muitos anos e busca o máximo desempenho possível, especialmente em aplicações pesadas, a DDR5 continua sendo a opção mais interessante quando a diferença de preço é razoável.

O que esperar daqui para frente?

O mais preocupante é que a situação não parece ser apenas um problema temporário de estoque.

A indústria de memória está passando por uma mudança estrutural provocada pelo crescimento da inteligência artificial.

Fabricantes precisam decidir quanto de sua capacidade produtiva será destinada à memória tradicional e quanto será direcionado para produtos utilizados em data centers e aceleradores de IA.

A MSI estima que a pressão sobre o mercado de memória continuará durante 2026, enquanto outras análises apontam que a normalização dos preços pode demorar ainda mais.

Isso significa que a DDR4 pode continuar aparecendo em produtos novos por mais tempo do que seria esperado.

Uma ironia da era da IA

A situação atual mostra uma consequência curiosa da revolução da inteligência artificial.

A mesma tecnologia que está criando novos computadores, data centers e serviços digitais também está aumentando a demanda por componentes necessários para fabricar os computadores tradicionais.

A IA está ajudando a impulsionar o mercado de tecnologia — mas também está tornando alguns componentes mais caros para o consumidor comum.

E o retorno da DDR4 aos notebooks é um dos sinais mais claros dessa transformação.

Conclusão

A volta da DDR4 não significa que a DDR5 fracassou ou que a indústria decidiu abandonar a evolução da memória RAM.

É uma resposta econômica a uma situação excepcional.

Enquanto os data centers de IA continuam consumindo grandes quantidades de memória e a capacidade de fabricação permanece pressionada, fabricantes precisam encontrar maneiras de manter notebooks competitivos.

Por isso, não se surpreenda se encontrar cada vez mais anúncios de notebooks novos dizendo:

“DDR4 em 2026”.

Pode parecer um retrocesso.

Mas, na verdade, é um dos efeitos colaterais da corrida mundial pela inteligência artificial.

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