Brasil compra IA dos EUA e da China: país busca tecnologia sem depender de um único fornecedor
O Brasil decidiu seguir um caminho diferente na corrida mundial pela inteligência artificial.
Em vez de apostar em apenas um fornecedor, o governo brasileiro está dividindo seus investimentos em infraestrutura de IA entre Estados Unidos e China. A estratégia envolve a aquisição de um supercomputador com tecnologia americana e uma parceria com empresas chinesas para desenvolver outra estrutura de computação voltada à inteligência artificial.
A decisão acontece em um momento em que Estados Unidos e China disputam a liderança mundial em inteligência artificial, chips e supercomputação.
Para o Brasil, a escolha representa uma tentativa de ampliar sua capacidade tecnológica e, ao mesmo tempo, evitar uma dependência excessiva de apenas um país.
Brasil quer dois grandes centros de computação
O investimento faz parte da estratégia brasileira para ampliar a infraestrutura necessária ao desenvolvimento de modelos de inteligência artificial.
Um dos projetos prevê aproximadamente R$ 1 bilhão para um supercomputador que deverá ser instalado no Rio Grande do Norte. A máquina deverá utilizar tecnologia da americana Nvidia e poderá alcançar cerca de 7.200 petaflops de capacidade de processamento de IA.
O segundo projeto envolve aproximadamente R$ 1,3 bilhão e será desenvolvido no Rio de Janeiro em parceria com empresas chinesas, entre elas a Huawei e a iFlytek. A estrutura deverá ser utilizada para desenvolver modelos de linguagem e aplicações de inteligência artificial.
Na prática, o Brasil está tentando construir uma infraestrutura nacional utilizando tecnologias provenientes dos dois principais polos mundiais de IA.
Por que comprar dos dois lados?
A resposta está diretamente relacionada à geopolítica.
Atualmente, Estados Unidos e China disputam o domínio de tecnologias estratégicas como:
- chips de inteligência artificial;
- supercomputadores;
- data centers;
- modelos de linguagem;
- computação em nuvem;
- redes de alta velocidade;
- semicondutores.
Ao escolher fornecedores dos dois países, o Brasil tenta reduzir o risco de ficar preso a apenas uma cadeia tecnológica.
Essa estratégia também busca aumentar o poder de negociação brasileiro.
Se determinado fornecedor tiver problemas de disponibilidade, restrições comerciais ou mudanças nas regras de exportação, o país não ficaria totalmente dependente de uma única alternativa.
A Nvidia entra pelo lado americano
A tecnologia americana terá papel importante no projeto brasileiro.
A Nvidia é atualmente uma das empresas mais importantes do mundo quando o assunto é hardware para inteligência artificial.
Suas GPUs são utilizadas em data centers, universidades, empresas de tecnologia e centros de pesquisa para treinamento e execução de grandes modelos de IA.
O supercomputador brasileiro previsto para o Rio Grande do Norte deverá utilizar essa tecnologia.
O projeto é estimado em cerca de R$ 1 bilhão e pretende colocar o Brasil entre os países com maior capacidade de processamento de IA.
E a China?
Do outro lado está a parceria chinesa.
O projeto brasileiro envolve empresas como Huawei e iFlytek e tem como uma das metas ampliar a capacidade nacional de desenvolvimento de modelos de inteligência artificial.
A parceria também pretende envolver transferência de tecnologia e formação de profissionais, algo considerado estratégico para o país.
Esse ponto é importante.
Comprar máquinas prontas aumenta a capacidade de processamento do Brasil, mas não necessariamente cria conhecimento tecnológico dentro do país.
Por isso, a transferência de conhecimento pode ser tão importante quanto o próprio equipamento.
Brasil quer evitar dependência tecnológica
A estratégia brasileira pode ser resumida em uma palavra:
diversificação.
Em vez de depender exclusivamente de tecnologia americana ou chinesa, o país pretende utilizar diferentes fornecedores e, paralelamente, desenvolver competências próprias.
Essa preocupação não é exclusiva do Brasil.
Na corrida pela inteligência artificial, países perceberam que possuir modelos avançados não é suficiente.
É preciso ter acesso a:
chips + energia + data centers + redes + pesquisadores + software + dados.
Sem esses elementos, torna-se difícil desenvolver uma infraestrutura nacional competitiva.
O Brasil também quer desenvolver seus próprios chips
O projeto anunciado pelo governo não se limita à compra de supercomputadores.
Também estão previstos investimentos em chips baseados na arquitetura aberta RISC-V, com recursos destinados ao desenvolvimento de semicondutores nacionais.
A arquitetura RISC-V chama atenção justamente por ser um padrão aberto, permitindo que empresas e instituições desenvolvam processadores sem depender de uma arquitetura proprietária tradicional.
Ainda existe uma enorme distância entre desenvolver um projeto de chip e produzir semicondutores avançados em escala industrial.
Mesmo assim, o investimento pode ajudar o Brasil a formar especialistas e criar conhecimento em uma área considerada estratégica.
Existe um risco nessa estratégia?
Sim.
Comprar tecnologia de dois países diferentes não significa automaticamente conquistar independência tecnológica.
Na realidade, o Brasil continuará dependendo de fornecedores estrangeiros para boa parte da infraestrutura.
Existe ainda uma questão geopolítica.
Os Estados Unidos e a China estão envolvidos em uma disputa tecnológica que inclui restrições à exportação de chips avançados e equipamentos de computação.
Isso significa que decisões tomadas em Washington ou Pequim podem afetar a disponibilidade de determinadas tecnologias para outros países.
O Brasil, portanto, precisará equilibrar cuidadosamente suas relações com os dois lados.
O modelo brasileiro lembra uma estratégia já conhecida
A ideia de negociar tecnologia com diferentes parceiros lembra, em certa medida, o chamado “modelo Gripen”, referência às negociações brasileiras envolvendo os caças suecos Gripen.
A lógica é tentar transformar uma simples compra em uma oportunidade de transferência de conhecimento, treinamento e desenvolvimento de capacidade local.
No caso da inteligência artificial, o objetivo seria semelhante:
não apenas comprar computadores, mas aprender a construir, operar e desenvolver tecnologia em torno deles.
O problema não é apenas comprar computadores
Um supercomputador extremamente poderoso não resolve sozinho os problemas de IA de um país.
É necessário ter profissionais capazes de utilizá-lo.
Também são necessários pesquisadores, universidades, empresas, startups, engenheiros de software e especialistas em semicondutores.
Além disso, existe outro recurso fundamental:
energia.
Data centers especializados em inteligência artificial consomem enormes quantidades de eletricidade.
Projeções recentes indicam que o consumo de energia dos data centers brasileiros pode crescer de maneira muito significativa até 2030, impulsionado justamente pela expansão da IA e da computação em nuvem.
Portanto, a corrida brasileira pela inteligência artificial também será uma corrida por energia, infraestrutura e profissionais qualificados.
O Brasil pode se tornar um polo de IA?
Potencial existe.
O país possui universidades importantes, um mercado interno gigantesco, grande quantidade de dados e uma economia diversificada.
Também possui setores que podem se beneficiar bastante da inteligência artificial, como:
- agricultura;
- saúde;
- indústria;
- bancos;
- petróleo e gás;
- mineração;
- educação;
- serviços públicos.
O desafio é transformar a infraestrutura adquirida em conhecimento e produtos.
Ter um dos supercomputadores mais rápidos do mundo não garante, por si só, que o Brasil terá empresas de IA competitivas internacionalmente.
É preciso criar um ecossistema em torno dessas máquinas.
Uma aposta entre EUA e China
A escolha brasileira é interessante justamente porque acontece no meio de uma disputa tecnológica histórica.
De um lado estão os Estados Unidos, que possuem empresas como Nvidia e uma enorme indústria de software e semicondutores.
Do outro está a China, que vem investindo pesadamente em chips próprios, modelos de IA e infraestrutura tecnológica.
O Brasil tenta aproveitar oportunidades dos dois lados sem escolher exclusivamente um deles.
Essa estratégia pode trazer vantagens, mas também exige cuidado.
A questão será saber se o país conseguirá transformar a compra de tecnologia estrangeira em capacidade tecnológica nacional.
O verdadeiro teste começa agora
O investimento de bilhões de reais pode colocar o Brasil em uma posição muito melhor para pesquisar e desenvolver inteligência artificial.
Mas o sucesso do projeto não deverá ser medido apenas pelo número de petaflops dos novos supercomputadores.
A pergunta mais importante será:
o que o Brasil conseguirá construir utilizando essa capacidade?
Se os novos centros conseguirem formar profissionais, desenvolver modelos brasileiros, apoiar universidades, impulsionar empresas nacionais e gerar tecnologia própria, o investimento poderá representar um avanço importante.
Caso contrário, o país corre o risco de simplesmente comprar máquinas extremamente caras para continuar dependendo de tecnologia estrangeira.
Por enquanto, a estratégia brasileira é clara:
comprar dos Estados Unidos, cooperar com a China e tentar desenvolver conhecimento próprio.
Em uma corrida tecnológica na qual chips, dados, energia e inteligência artificial estão se tornando ativos estratégicos, talvez essa seja uma das decisões mais importantes que o Brasil tomou na área de tecnologia nos últimos anos.